bem galera, não podiamos deixar de registrar essa matéria...
APARTHEID: ESPAÇO NEGRO É DISCRIMINADO E VIGIADO NA VIRADA CULTURAL
APARTHEID: ESPAÇO NEGRO É DISCRIMINADO E VIGIADO NA VIRADA CULTURAL
Como os mecanismos racistas apareceram na organização da Virada Cultural, na sua cobertura e mesmo nos comportamentos de pessoas que freqüentaram os espaços de música negra.
Dennis de Oliveira*
Entre tantos confetes despejados pela mídia para a Virada Cultural - principalmente pelo fato do Poder Público mobilizar sua estrutura para criar um 'simulacro' de paz no degradado centro de São Paulo, permitindo que a classe média possa passear tranquilamente nas ruas cotidianamente ocupadas por mendigos, trombadinhas, prostitutas, vendedores de crack e outros párias - não passaram despercebidas as atitudes racistas da organização do evento para quem freqüentou o espaço destinado à apresentaçãodos grupos de hip-hop e black music.
Dentro da filosofia de segmentação dos espaços de acordo com os ritmos apresentados, a organização da Virada Cultural 'segregou' o hip-hop e a black music para um local mais distante do centro, a Praça Cívica do Parque D. Pedro, atrás da antiga sede da prefeitura, o Palácio das Indústrias. O local é de acesso difícil e fica mais distante da maioria dos espaços centrais onde aconteceram outras apresentações.
Os freqüentadores deste espaço na Virada, além de enfrentarem a distância, ainda passaram pelo constrangimento da ação ostensiva da Polícia Militar que mobilizou o seu maior contigente para este local e ainda praticaram atos que não se verificaram em outros espaços, como uma rigorosa revista em bolsas, sacolas e no próprio corpo, tanto em homens como em mulheres. A entrada de cervejas e refrigerantes em lata foi proibida (ao contrário de outros locais, onde a venda de bebidas era livre).
O rapper Rappin' Hood afirmou: 'Estamos sitiados'. Para Thaíde, 'a localização do palco é uma forma de demonstrar o preconceito'. Estas duas declarações foram publicadas na matéria Rappers reclamam de revista da polícia e do local do palco publicada na Folha de S. Paulo de 28 de abril, na página E-5. Na mesma página, a Folha de S. Paulo dá destaque para uma ação policial que impediu a apresentação de um grupo francês de dança no largo Santa Ifigênia. Esta mesma matéria é iniciada da seguinte forma: Foco de atenção da última Virada Cultural com o show dos Racionais MC's na praça da Sé - que terminou em pancadaria entre policiais e espectadores - o hip hop ficou longe do núcleo da festa nesta edição do ano.
O que se infere desta abertura da matéria é que adiscriminação deu-se por conta de uma visão construída, a partir da generalização de um fato particular, de que show de rap é um risco e, portanto, deve ser segregado e colocado sob rígida vigilância. A lembrança ao episódio do ano passado que envolveu os Racionais também é lembrada na matéria sobre o problema com o grupo francês de dança, com destaque inclusive no 'olho' (O secretário municipal decultura … disse que a ferida de 2007 ainda estrá aberta).
Traduzindo: o fato que ocorreu no show dos Racionaisno ano passado prejudicou, em primeiro lugar (seguindo a hierarquia estabelecida pelo jornal em termos de destaque) a apresentação do grupo francês de dança e também foi responsável pelo constrangimento a que tiveram que passar os fãs de hip-hop e black music neste ano. A culpa é dos pretos pobres que impedem que se civilize a cultura e o centro de São Paulo degradado pelos párias (prostitutas, mendigos, 'crackeiros', bêbados).
No palco do samba, na Santa Ifigênia, durante a apresentação do Quinteto em Branco e Preto no domingo à tarde, um grupo de jovens, brancos e declasse média, se divertia fumando cigarros e cigarros de maconha, bebendo latas e latas de cerveja e outras bebidas alcóolicas, apresentando-se totalmente tontos e prestes a cair em cima de pessoas - atitudes que socialmente são justificadas pelo visual 'hippie' e pela permissividade de comportamentos quando estes são praticados por pessoas da classe média branca em espaços negros. Nenhuma crítica moralista nisto, mas nota-se com os fatos que o inverso não é verdadeiro. Ou será que jovens negros podem ficar alterados com bebidas e drogas na apresentação, por exemplo, de um grupo de dança francês?
(*) Professor da Escola de Comunicações e Artes daUSP, jornalista, doutor em Ciências da Comunicaçãopela ECA/USP, presidente do Celacc (Centro deEstudos Latino Americanos de Cultura e Comunicação) e membro do Neinb (Núcleo deEstudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro).
E-mail: dennisoliveira@uol.com.br
Site: http://dennisoliveira.sites.uol.com.br/
Blog: http://dennisoliveira.zip.net/

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